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...No deixis mai de somiar...

Fernando Pessoa

Para ser grande, sé entero. Nada...

Para ser grande, sé entero. Nada        

 tuyo exageres o excluyas.

Sé todo en cada cosa. Pon cuanto eres 

        en lo mínimo que hagas,

Así en cada lago la luna entera

         brilla, porque alta vive.

Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido

De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,

      Homem, é igual aos deuses.

No sólo quien nos odia o nos envidia
Nos limita y oprime; quien nos ama
No menos nos limita.
Que los dioses me concedan que, despedido

De afectos, tenga la fría libertad
De las cimas sin nada.
Quien quiere poco, tiene todo; quien quiere nada
Es libre; quien no tiene, y no desea,

      Hombre, es igual a los dioses.

A mesura que caminem ens trobem amb entrebancs, aprenem a veure a distància els nostres límits. Aprenem a no deixar-nos limitar pels altres. Però al cap i a la fi tots estem condemnats a veure’ns trepitjats per altres. Tots aquells que ens odien i ens envegen ( de fet l’odi és sempre per enveja) ens oprimeixen, ens fan desviar del camí. Però acabem trobant la drecera. De fet els que ens estimen també ens limiten, i és que tot allò que desitgem és un entrebanc més al nostre camí. Si volguéssim poca cosa, aspiréssim a objectius fàcilment realitzables, llavors seríem feliços. De seguida tindríem tot el que volem. I per analogia si no aspiréssim a res ni tinguéssim res per preocupar-nos; seríem lliures per caminar, per córrer. Tot i que jo no crec en la comparació final, que res té ni res desitja no és igualable a un déu, no és ni igualable a una persona. No desitjar res no ens fa ser superiors, no tenir somnis no ens fa ser més lliures. Si no podem caminar, somiem que volem. Ningú que no hagi volat mai pels seus camins es pot designar quelcom més que persona. Vivim per somiar i somiem per viure els nostres somnis.

Se Eu Pudesse

Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...

Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja...

Si yo pudiera morder toda la tierra
Y paladearla,
Sería más feliz un momento...
Pero no siempre quiero ser feliz.
Es preciso ser de vez en cuando infeliz
Para poder ser natural...

No todo es días de sol,
Y la lluvia, cuando falta mucho, se pide.
Por eso tomo la infelicidad como la felicidad
Naturalmente, como quien no extraña
Que haya montañas y planicies
Y que haya peñazcos e hierba...

Lo que es necesario es ser natural y calmo
En la felicidad o en la infelicidad,
Sentir como quien mira,
Pensar como quien anda,
Y cuando se va a morir, recordarse que el día muere,
Y que el poniente es bello y es bella la noche que queda...
Así es y así sea...

La nostra vida és un camí continu cap a la felicitat. Ara bé, en aquesta frase queda implícit que tot camí té un punt de sortida que òbviament no coincideix amb l’objectiu final. Amb això vull dir que si no coneguéssim la infelicitat no podríem aspirar a quelcom millor. “Si todo fuera excelsor nada lo sería” ( Diderot). Si pogués durant un sol instant tenir-ho tot seria feliç, però no per sempre, tan sols un instant. Tan sols per provar el gust de la felicitat, per passar-se la vida anhelant aquests petits moments. Com podríem valorar la presència si no coneixem l’absència? És meravellosa la posta de Sol, el final de la vida. Perquè no tot pot ser perfecte. Perquè la pluja es troba a faltar quan sempre fa Sol, perquè tothom necessita plorar. Ser natural significa ser ple, tenir bons i mals moments, sentir tristesa i alegria...

El corb ( traducció de Pessoa)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
Isso só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."
Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhão também te vais".
Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais
Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,
Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Édem de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"
Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,
Libertar-se-á... nunca mais!